Arquitetura Desobediente | 2017.2
projeto mlbus
PRJ081 | contexto da disciplina
A disciplina de projeto Arquitetura Desobediente, desenvolvida no segundo semestre de 2017 sob orientação da professora Marcela Brandão, foi elaborada a partir da doação de um ônibus da empresa VINA para o MLB que, apesar de antigo (fabricado em 1994), estava em perfeitas condições para realizar os deslocamentos que o Movimento necessitava para suas ações de militância. O “direito à cidade”, experimentado por jovens que participaram de uma ação extensionista anterior, que foram as oficinas de rádio, poderia ser ampliado, e isso foi percebido pelo Movimento como sendo um ganho enorme para a luta pela moradia.
Dessa forma, a disciplina propôs a transformação do ônibus, sendo que este deveria promover maior mobilidade urbana aos moradores das ocupações organizadas pelo MLB, mas também possibilitar diferentes usos e apropriações, ou seja, quando estivesse estacionado, ele deveria acolher outras atividades importantes para os moradores das ocupações, como feiras e sessões de cinema. Assim, o plano de ensino da disciplina propôs a conjugação entre projeto e construção, na escala do que é entendido como “arquitetura de interiores”, trabalho que foi desenvolvido coletivamente entre discentes e a comunidade das ocupações Eliana Silva e Paulo Freire, na região do Barreiro em Belo Horizonte.
Processos de aproximação do território
A disciplina teve como ponto de partida a abertura de um breve diálogo para contextualizar o assunto em questão, além de apresentar algumas observações a respeito do trabalho em uma ocupação. Um dos principais pontos apresentados foi a relação de a parceria entre a Universidade e a comunidade, cria um acordo que ultrapassa os prazos e limites da disciplina, uma vez que diz respeito a narrativas extremamente heterogêneas. Dessa forma, foi necessário entender e respeitar o tempo e a disponibilidade de cada um dos envolvidos. Assim, o Pflex teve como objetivo, desenvolver discussões e práticas que vão muito além do desenho e se expandem no sentido de envolver, diretamente, a comunidade e os discentes, numa produção coletiva.
Os alunos da disciplina iniciaram o processo com a elaboração de “instrumentos cartográficos”, com o objetivo de disparar discussões sobre mobilidade urbana, relações de vizinhança, as atividades dos moradores no seu cotidiano, e também nas festas, reuniões, bazares, manifestações, etc. Além de uma maquete desmontável do ônibus, os alunos montaram um grande mapa do entorno do Vale das Ocupações, e com os equipamentos públicos marcados, construíram um jogos de palavras e um kit de imagens de ônibus reformados. A intenção era cartografar o território; mapear a produção do espaço engendrada por eles; ampliar repertórios; levantar as habilidades de cada um e os recursos disponíveis nas ocupações; discutir possibilidades e construir os acordos necessários para a realização efetiva da reforma do ônibus.
O primeiro contato com as ocupações do Barreiro foi extremamente importante para o desenvolvimento da disciplina. Em uma visita à Ocupação Eliana Silva, os alunos puderam observar: a declividade do terreno previsto para acolher o MLBus e outras atividades, assim como fazer levantamentos topográficos e fotográficos do local; a existência da estrutura de dois banheiros que eram subutilizados; a potencialidade do terreno de articular a ocupação com o bairro vizinho, tendo em vista seus duplos limites: Av. Che Guevara, interna à ocupação, e Av. Perimetral, externa à ocupação; e as dificuldades de manobras do ônibus no terreno.


Antes da ida ao território para a realização das dinâmicas junto aos moradores, os alunos realizaram em sala a elaboração: de uma maquete do terreno e do ônibus; de uma malha qualificada do terreno; de um mapa do entorno das ocupações; além de ícones disparadores de debates, os quais eram divididos por 1) grupos, encontros, eventos e oficinas + 2) habilidades e materiais disponíveis + 3) lugares e a relação econômica e de troca.




- A existência de estrutura de dois banheiros que estavam subutilizados na ocupação.
- Visibilidade e potencialidade do terreno de articular com o bairro vizinho.





Dinâmica sobre os dispositivos de diálogos realizada na ocupação Eliana Silva, no dia 10 de agosto de 2017
Alguns problemas foram percebidos e destacados pelos alunos após a primeira conversa na Eliana Silva. Entre os principais, se destacou a participação de poucos moradores, fato que poderia ser justificado pelo horário no qual a reunião aconteceu, já que tratava-se de um dia de semana e em horário comercial. Além disso, os grupos tiveram uma certa dificuldade em criar um diálogo conciso e por fim, foi colocada em pauta a eficiência do jogo, afinal, naquela ocasião o jogo foi algo um tanto quanto confuso e talvez apenas perguntas disparadoras gerariam uma articulação mais clara e possível de interação.
Na intenção de reduzir esse problema, foi criada uma nova metodologia de aproximação. Durante o percurso da disciplina foram criados dispositivos capazes de aproximar os moradores do processo, sendo que um deles foi a criação de uma dinâmica com perguntas disparadoras. Tais dispositivos tinham a função de sair do sistema convencional e propor um diálogo personalizado para aquela localidade, assim como o reconhecimento e proposta de parcerias. Além disso, o uso do mapa do território, com a possibilidade de identificação e marcação, possibilitou uma conversa fluida.







Propostas











Segmentos posteriores
A alteração estética da carcaça do ônibus também foi aprovada pelos moradores das ocupações, mas só foi executada após o término da disciplina. Os bolsistas dos projetos de extensão e pesquisa da época se encarregaram dessa atividade, que incluiu desde o desenvolvimento da identidade visual do ônibus, até sua execução de fato. Para isso, foi feito um mapeamento das palavras fortes associadas ao MLB em sua página do Facebook, e posteriormente, foram apresentadas em uma discussão entre discentes e coordenadores do Movimento, na intenção de definir quais palavras comporiam a identidade visual pretendida, foram selecionadas: moradia digna, protesto, direitos, reforma urbana, feminismo, famílias e outras. Essas palavras foram pintadas, sob a forma de um skyline, nas laterais do ônibus pelos próprios alunos e com o apoio dos funcionários da VINA, que também disponibilizaram tintas e equipamentos de pintura.


















Cartazes de divulgação da coleta de assinaturas para a formação do partido político Unidade Popular pelo Socialismo (UP); e eventos onde o MLBus e os móveis desenvolvidos na disciplina da professora Luciana Bragança estiveram presentes

































































































































































