natureza política

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Arquitetura Desobediente | 2020.1

Carolina Maria de Jesus

PRJ081 | Contexto da disciplina

O PFLEX Arquitetura Desobediente  (PFlex – PRJ081: Arquitetura Desobediente)  foi criado em 2016, a partir do pressuposto que desenho, construção e uso são etapas indissociáveis do processo projetual, conectadas de forma não linear e dinâmica.  Proposta e ministrada pela professora Marcela Brandão, essa disciplina é desenvolvida, desde então,  em articulação com o projeto de extensão Artesanias do Comum, a partir de  demandas vindas de grupos parceiros da extensão. 

No que se refere às metodologias de ensino para o desenvolvimento das propostas arquitetônicas,  os alunos devem construir instrumentos de interlocução interativos (maquetes, jogos, mapas e linhas do tempo) a fim de (1) discutir e problematizar demandas junto aos parceiros, (2) mapear recursos materiais e humanos disponíveis, (3) acordar as soluções projetuais. As propostas arquitetônicas desenvolvidas devem ser consistentes em termos técnico-materiais e viáveis no que se refere aos quesitos econômicos. Parte dessas propostas devem ser executadas por meio de atividades práticas desenvolvidas nos laboratórios da Escola e/ou por meio de mutirões com os parceiros.

Este PFLEX foi o primeiro a ser desenvolvido durante a pandemia do Covid, o que inicialmente causou dúvidas se haveria condições dele acontecer, tendo em vista a participação dos parceiros e a execução de parte dos projetos desenvolvidos, seja por mutirão ou construção de protótipos, estaria limitada ou mesmo comprometida. De fato, não houve a execução efetiva dos projetos, mas a participação da coordenação e dos moradores foi intensa, diríamos inclusive que foi maior que as versões anteriores do Arquitetura desobediente, possivelmente.

Importante ressaltar que o PFLEX já havia articulado parcerias com a ocupação em 2018 (1 e 2) e em 2019-1. Ou seja, tratava-se de uma parceria sólida, cujos laços de confiança já estavam consolidados.

Processos de aproximação do território

A turma foi dividida em 4 grupos de acordo com as demandas trazidas: creche para as criança, uma cozinha coletiva para suporte nas produção de marmitas, compotas e hambúrgueres já em curso, um salão de beleza também em funcionamento no edifício e a adaptação das moradias para atender melhor os arranjos familiares daquele momento.


Novamente, a disciplina se iniciou por meio de jogos, desta vez desenvolvidos por meio da plataforma The Miro, que também permitiu que o desenvolvimento das propostas fosse feito de forma muito interativa.

Propostas

No caso do salão de beleza, o trabalho do grupo de alunas foi importante tanto para a definição do local exato onde seria implantado o salão, como para a discussão sobre as instalações de água e esgoto, quanto para o desenvolvimento dos lay-outs e mobiliários. Vale dizer que posteriormente esse projeto foi executado pelos moradores cabeleireiros do salão.

No caso da cozinha coletiva, o grupo desenvolveu 3 propostas diferentes, capazes de atender demandas crescentes mapeadas durante as dinâmicas, ou seja, desde o suporte para a confecção das atividades culinárias já em curso, passando para um futuro restaurante aberto ao público, e finalmente um restaurante escola.

Quanto à creche, as dinâmicas desenvolvidas pelas alunas foram fundamentais para se definir o local onde seria implantada a creche, considerando os acessos, as instalações sanitárias e espaços vizinhos do andar, que deveriam também ser contemplados. O resultado foi um projeto consistente e muito acolhedor.

Em relação aos arranjos das moradias, a dupla de alunos desenvolveu um jogo, organizado em 3 etapas:(1) como é que é (2) é treta? (3) e se. A proposta era que os próprios moradores pudessem definir os arranjos mais adequados às suas necessidades habitacionais. Esse jogo foi posteriormente usado para o desenvolvimento do TCC de uma orientanda da professora Marcela Brandão, a Luiza Guinho, aluna do PFLEX em 2018-2, que desde lá criou um vínculo forte com os moradores da ocupação.

linguagens técnicas e poéticas

As significações imaginárias e simbólicas sobre o que sejam “cidades mais justas e sustentáveis” são diversas e atravessadas pelos valores instituídos. Para ampliar tais significações é preciso acionar linguagens diversas, oriundas dos campos técnicos e poéticos.

narrativas

Para um mesmo fato, surge mais de uma narrativa que explica/justifica tal fato, ou seja, há muitas figurações que precisam ser expandidas, antes que se faça uma separação precoce do que possa ser falso ou verdadeiro, exato ou figurativo. A partir da diversidade de narrativas, orbitam atores humanos e não-humanos diversos, antagônicos ou não.

cartografia

A cartografia como metodologia assume a pesquisa como dispositivo de intervenção, produtora de acontecimentos abertos à imprevisibilidade da ação.


O movimento alternado do observador-pesquisador, ora em direção ao processo que pretende analisar, ora se afastando dele, desestabiliza a separação entre sujeito e objeto, tornando sujeitos políticos tudo e todos os envolvidos nos processos, com vozes e saberes a serem compartilhados, e, por isso, passíveis de transformação.

assessoria técnica

Várias atividades extensionistas desenvolvidas pelo Natureza Política se aproximam das práticas de Assessoria Técnica, na medida em que demandas socioespaciais são trazidas por moradores e/ou lideranças comunitárias. Contudo, essas demandas são sempre problematizadas, tendo em vista a sua articulação à pesquisa e à produção de uma ciência viva e engajada socialmente, na fricção do erudito e do popular, resultando em um conjunto de técnicas e procedimentos coletivamente acordados, que visa a inclusão social e a justiça ambiental.

giro epistemológico

O chamado “giro espacial” é identificado a partir de uma mudança de ênfase da dimensão temporal para a dimensão espacial da sociedade, mudança esta ocorrida, aproximadamente, a partir do início da década de 1980 em termos da reflexão teórica, mas com raízes concretas que remontam aos movimentos culturais e eco lógicos dos anos 1960-70. O termo “giro decolonial” foi “cunhado originalmente por Nelson Maldonado-Torres em 2005” e “basicamente significa o movimento de resistência teórico e prático, político e epistemológico, à lógica da modernidade/colonialidade.

(HAESBAERT)

práxis instituinte

A única práxis emancipadora é aquela que faz do comum a nova significação do imaginário social. Isso significa também que o comum, […], sempre pressupõe uma instituição aberta para a sua história, […], para tudo aquilo que funcione como o seu inconsciente.

(Dardot&Laval, 2016, p.368)

comum

O comum deve ser pensado como co-atividade (…) somente a atividade prática dos homens pode tornar as coisas comuns (…), pode produzir um novo sujeito coletivo.

Se existe “universalidade”, só pode ser trata-se de uma universalidade prática.

(Dardot&Laval, 2016, p.40)

imaginários radicais

A história é impossível e inconcebível fora da imaginação produtiva ou criadora, do que nós chamamos imaginário radical tal como se manifesta ao mesmo tempo e indissoluvelmente no fazer histórico, e na constituição, antes de qualquer racionalidade explícita, de um universo de significações.

(Castoriadis, 1982, p.176)

emancipação

A emancipação advém tanto da compreensão dos mecanismos de poder e sujeição, quanto da destituição da forma de agência que tais mecanismos pressupõe (…) A emancipação é uma deposição do saber, é uma decomposição da voz e a instauração de uma nova gramática de poder na vida social.


(SAFATLE)

dispositivos

“Um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo”


(Foucault, 2015, p.364)

poder

O poder tem que ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia.


(FOUCAULT)