CARTOGRAFIAS EMERGENTES é um projeto extensionista criado em 2014, que esteve vinculado ao Programa Laboratório Nômade do Comum (IND-LAB), e desde 2017 integra o Programa Natureza Política (EA/UFMG), coordenado pela professora Marcela Brandão (EA-PRJ).
O projeto é composto por discentes e docentes, que junto a cidadãos, atingidos pelo desastre-crime no Rio Doce, ativistas e militantes dos movimentos populares, visam a criação de redes ativas por mais justiça social.
Além dos trabalhos realizados junto a movimentos populares e moradores de territórios vulneráveis, atualmente o grupo desenvolve parcerias com diversas ONGs, grupos e instituições de pesquisa, como o Projeto Brumadinho UFMG e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
As metodologias utilizadas são:
– Uma interlocução direta com as comunidades atingidas pelo desastre-crime do Rio Doce e o desvendamento das estratégias empresariais que têm aprofundado tal situação.
– Utilização do método cartográfico na configuração de processos constituintes onde se possa vislumbrar maneiras de mapear, de registrar e de criar novas realidades, de forma colaborativa.
– Reuniões entre pesquisadores (professores e alunos de graduação e pós-graduação envolvidos no projeto, assim como com os atingidos e parceiros) onde são produzidas ações como artigos, dissertações e teses, plataformas digitais, oficinas em campo com atingidos e comunidades ao longo da Bacia do Rio Doce, mapas georreferenciados, cartilhas, aulões, seminários e exposições que compõem um método dinâmico que não separa sujeito e objeto da pesquisa já que os pesquisadores são também envolvidos nas causas dos movimentos populares parceiros.
Colocar as disciplinas
As significações imaginárias e simbólicas sobre o que sejam “cidades mais justas e sustentáveis” são diversas e atravessadas pelos valores instituídos. Para ampliar tais significações é preciso acionar linguagens diversas, oriundas dos campos técnicos e poéticos.
Para um mesmo fato, surge mais de uma narrativa que explica/justifica tal fato, ou seja, há muitas figurações que precisam ser expandidas, antes que se faça uma separação precoce do que possa ser falso ou verdadeiro, exato ou figurativo. A partir da diversidade de narrativas, orbitam atores humanos e não-humanos diversos, antagônicos ou não.
A cartografia como metodologia assume a pesquisa como dispositivo de intervenção, produtora de acontecimentos abertos à imprevisibilidade da ação.
O movimento alternado do observador-pesquisador, ora em direção ao processo que pretende analisar, ora se afastando dele, desestabiliza a separação entre sujeito e objeto, tornando sujeitos políticos tudo e todos os envolvidos nos processos, com vozes e saberes a serem compartilhados, e, por isso, passíveis de transformação.
Várias atividades extensionistas desenvolvidas pelo Natureza Política se aproximam das práticas de Assessoria Técnica, na medida em que demandas socioespaciais são trazidas por moradores e/ou lideranças comunitárias. Contudo, essas demandas são sempre problematizadas, tendo em vista a sua articulação à pesquisa e à produção de uma ciência viva e engajada socialmente, na fricção do erudito e do popular, resultando em um conjunto de técnicas e procedimentos coletivamente acordados, que visa a inclusão social e a justiça ambiental.
O chamado “giro espacial” é identificado a partir de uma mudança de ênfase da dimensão temporal para a dimensão espacial da sociedade, mudança esta ocorrida, aproximadamente, a partir do início da década de 1980 em termos da reflexão teórica, mas com raízes concretas que remontam aos movimentos culturais e eco lógicos dos anos 1960-70. O termo “giro decolonial” foi “cunhado originalmente por Nelson Maldonado-Torres em 2005” e “basicamente significa o movimento de resistência teórico e prático, político e epistemológico, à lógica da modernidade/colonialidade.
(HAESBAERT)
A única práxis emancipadora é aquela que faz do comum a nova significação do imaginário social. Isso significa também que o comum, […], sempre pressupõe uma instituição aberta para a sua história, […], para tudo aquilo que funcione como o seu inconsciente.
(Dardot&Laval, 2016, p.368)
O comum deve ser pensado como co-atividade (…) somente a atividade prática dos homens pode tornar as coisas comuns (…), pode produzir um novo sujeito coletivo.
Se existe “universalidade”, só pode ser trata-se de uma universalidade prática.
(Dardot&Laval, 2016, p.40)
A história é impossível e inconcebível fora da imaginação produtiva ou criadora, do que nós chamamos imaginário radical tal como se manifesta ao mesmo tempo e indissoluvelmente no fazer histórico, e na constituição, antes de qualquer racionalidade explícita, de um universo de significações.
(Castoriadis, 1982, p.176)
A emancipação advém tanto da compreensão dos mecanismos de poder e sujeição, quanto da destituição da forma de agência que tais mecanismos pressupõe (…) A emancipação é uma deposição do saber, é uma decomposição da voz e a instauração de uma nova gramática de poder na vida social.
(SAFATLE)
“Um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo”
(Foucault, 2015, p.364)
O poder tem que ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia.
(FOUCAULT)