natureza política

Arquitetura Desobediente 2017.1

ocupação rosa leão

PRJ081 | contexto da disciplina

O PFLEX Arquitetura Desobediente  (PFlex – PRJ081: Arquitetura Desobediente)  foi criado em 2016, a partir do pressuposto que desenho, construção e uso são etapas indissociáveis do processo projetual, conectadas de forma não linear e dinâmica.  Proposta e ministrada pela professora Marcela Brandão, essa disciplina é desenvolvida, desde então,  em articulação com o projeto de extensão Artesanias do Comum, a partir de  demandas vindas de grupos parceiros da extensão. 

 

No que se refere às metodologias de ensino para o desenvolvimento das propostas arquitetônicas,  os alunos devem construir instrumentos de interlocução interativos (maquetes, jogos, mapas e linhas do tempo) a fim de (1) discutir e problematizar demandas junto aos parceiros, (2) mapear recursos materiais e humanos disponíveis, (3) acordar as soluções projetuais. As propostas arquitetônicas desenvolvidas devem ser consistentes em termos técnico-materiais e viáveis no que se refere aos quesitos econômicos. Parte dessas propostas devem ser executadas por meio de atividades práticas desenvolvidas nos laboratórios da Escola e/ou por meio de mutirões com os parceiros.

O PFLEX Arquitetura Desobediente, no primeiro semestre de 2017, foi desenvolvido em parceria com a coordenação da Ocupação Rosa Leão, a partir da reflexão sobre memória e feminismo, com o foco em reconstruir a história da Ocupação Rosa Leão sob o olhar das mulheres.

Desenvolvimento

Para tal, foram construídos (1) a base de uma linha do tempo, (2) variadas formas de corpos femininos (baixos, altos, gordos, magros), (3) uma coleção de palavras pinçadas em conversas informais com as moradoras da ocupação e nos debates em sala de aula (alegre, triste, luta, feminino, moradia, rua, cuidado, compartilhamento, disputa, etc), e (4) uma coleção de imagens da ocupação, baixadas da internet.
 

A proposta era que as moradoras se representassem na linha do tempo no momento em que chegaram na ocupação e no momento mais marcante de sua vida na comunidade, e que identificassem no tempo eventos importantes da luta, a partir das fotos e das palavras impressas pelas estudantes. Para que o jogo não fosse algo fechado e pré-definido, papéis em branco também foram levados, além de tesouras e lápis de cor, para que novas palavras fossem escritas ao longo do processo, e para que cada moradora pudesse inserir suas marcas e suas histórias nos corpos desenhados.

A construção da linha do tempo (e da memória) visava recuperar lembranças sobre momentos de luta, das violências vividas, das amizades feitas, do orgulho de ser negra e das dores de ser ameaçada de despejo, que desencadearam narrativas potentes sobre as práticas femininas e feministas sobre a produção de um território não apenas físico, mas sobretudo afetivo.

Assim, lembranças foram narradas, e depois registradas, puderam ser transformadas em suportes (cartazes, estandartes, livro) de uma instalação para a comemoração do aniversário da ocupação. Tessitura de lembranças e saberes que evidenciaram outras subjetivações, subversivas e potentes, indicando pistas para a construção de outras condutas.

Alun@s

Flávio Barbosa

Gabriela Resende

Luiza Salles

Daniela Faria

Ludmila Aquino

Lethícia Gomes

Henrique Porto 

Camila Alvarez

Verônica Horta

Maria Clara Mariano

Natália Ravagnani

Gabriela Tavares

Tayná Marques

linguagens técnicas e poéticas

As significações imaginárias e simbólicas sobre o que sejam “cidades mais justas e sustentáveis” são diversas e atravessadas pelos valores instituídos. Para ampliar tais significações é preciso acionar linguagens diversas, oriundas dos campos técnicos e poéticos.

narrativas

Para um mesmo fato, surge mais de uma narrativa que explica/justifica tal fato, ou seja, há muitas figurações que precisam ser expandidas, antes que se faça uma separação precoce do que possa ser falso ou verdadeiro, exato ou figurativo. A partir da diversidade de narrativas, orbitam atores humanos e não-humanos diversos, antagônicos ou não.

cartografia

A cartografia como metodologia assume a pesquisa como dispositivo de intervenção, produtora de acontecimentos abertos à imprevisibilidade da ação.


O movimento alternado do observador-pesquisador, ora em direção ao processo que pretende analisar, ora se afastando dele, desestabiliza a separação entre sujeito e objeto, tornando sujeitos políticos tudo e todos os envolvidos nos processos, com vozes e saberes a serem compartilhados, e, por isso, passíveis de transformação.

assessoria técnica

Várias atividades extensionistas desenvolvidas pelo Natureza Política se aproximam das práticas de Assessoria Técnica, na medida em que demandas socioespaciais são trazidas por moradores e/ou lideranças comunitárias. Contudo, essas demandas são sempre problematizadas, tendo em vista a sua articulação à pesquisa e à produção de uma ciência viva e engajada socialmente, na fricção do erudito e do popular, resultando em um conjunto de técnicas e procedimentos coletivamente acordados, que visa a inclusão social e a justiça ambiental.

giro epistemológico

O chamado “giro espacial” é identificado a partir de uma mudança de ênfase da dimensão temporal para a dimensão espacial da sociedade, mudança esta ocorrida, aproximadamente, a partir do início da década de 1980 em termos da reflexão teórica, mas com raízes concretas que remontam aos movimentos culturais e eco lógicos dos anos 1960-70. O termo “giro decolonial” foi “cunhado originalmente por Nelson Maldonado-Torres em 2005” e “basicamente significa o movimento de resistência teórico e prático, político e epistemológico, à lógica da modernidade/colonialidade.

(HAESBAERT)

práxis instituinte

A única práxis emancipadora é aquela que faz do comum a nova significação do imaginário social. Isso significa também que o comum, […], sempre pressupõe uma instituição aberta para a sua história, […], para tudo aquilo que funcione como o seu inconsciente.

(Dardot&Laval, 2016, p.368)

comum

O comum deve ser pensado como co-atividade (…) somente a atividade prática dos homens pode tornar as coisas comuns (…), pode produzir um novo sujeito coletivo.

Se existe “universalidade”, só pode ser trata-se de uma universalidade prática.

(Dardot&Laval, 2016, p.40)

imaginários radicais

A história é impossível e inconcebível fora da imaginação produtiva ou criadora, do que nós chamamos imaginário radical tal como se manifesta ao mesmo tempo e indissoluvelmente no fazer histórico, e na constituição, antes de qualquer racionalidade explícita, de um universo de significações.

(Castoriadis, 1982, p.176)

emancipação

A emancipação advém tanto da compreensão dos mecanismos de poder e sujeição, quanto da destituição da forma de agência que tais mecanismos pressupõe (…) A emancipação é uma deposição do saber, é uma decomposição da voz e a instauração de uma nova gramática de poder na vida social.


(SAFATLE)

dispositivos

“Um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo”


(Foucault, 2015, p.364)

poder

O poder tem que ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia.


(FOUCAULT)